O velho Emanuel dos Pés descalços

Descalço a beira da estrada, lá vai o velho Emanuel a cantarolar. Os mais próximos diziam que ele tinha mais de cem anos. Mas quando perguntavam sua idade, suspirava, olhava o céu azul de um lado, as montanhas do outro e sorria para dizer que faltava pouco para completar trinta. 

O velho Emanuel tinha os pés rachados devido o caminhar na terra vermelha. Não era muito de calçados. Gostava de sentir o pulsar da terra na sola dos pés. Sua pele era da cor da noite e seus cabelos brancos como o algodão que brotava no quintal.  Gostava de ouvir o barulho das rodas do carro de boi na estrada empoeirada.  Era ele a referência por aquelas bandas para benzer a meninada do quebranto: “Gaio de arruda, gaio de alfazema, Deus te benze e te cure em nome de ‘NoSinhora”, Seu Jesus e o Espírito Santo. Deus zela as ‘virtude’ Amém” . 

De embornal nos ombros, os pés descalços e o chapéu de palha, lá vai o velho Emanuel na estrada. Aos cavaleiros, acenava com o sinal da cruz e em agradecimento sentia o aroma da marmita com feijão tombado e canjiquinha. “A dona Maria fez comida boa aí né, mas ‘farta’ o ovo frito”, brincava. 

Ficava por horas debaixo de um pé de jacarandá para observar o gado de um lado e a colheita de café que estendia até o final da luz do dia. Todas as manhãs, lá ia o velho Emanuel pelo caminho bem cedinho e fazia sempre as mesmas coisas. Aquele jacarandá no alto da serra ainda guarda muito dos seus pensamentos.

Certa vez, um jovem da cidade perguntou o que ele fazia todos os dias naquele terreno à sombra daquela árvore. Alegre, soltava uma gargalhada animada e dizia: “São os ‘zoio’ do dono da terra e do Pai Celestial que abençoa tudo o que sua vista vê”. Poucos sabiam, mas os pés que caminhavam na estrada vermelha abençoando a todos,  era o dono de todo aquele lugar. E ao preconceito que franzia a testa de uns, por não entender a simplicidade daquele homem tão rico de posses e de sabedoria,  respondia com tom de professor: “Oh meu ‘fio’, guarde em seu coração e nas ‘memória’, que nois é tudo iguar para Deus Pai. Sabe, quando nossa ‘mão’ se abraça, desenha ali no chão da terra `vermeia`,  a sombra de uma mesma cor”.


PS: Um continho de 2010 depois de uma noite sem sono.

Créditos da imagem: Artista Plástico Henrique Oliveira

http://henriqueartista.blogspot.com/2011/03/o-caipira-negro.html


Comentários

  1. Me fez lembrar da simplicidade dos personagens de Guimarães Rosa.

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