Xica da Silva: de vítima da violência doméstica à protagonista de sua história

Xica se supera a cada dia  / Foto: Regiane Ferreira

Francisca Maria da Silva é conhecida por todos como Xica da Silva "Xica com xis mesmo viu?, avisa a dona do sorriso empoderado de 55 anos.  Conheci a Xica em 2013,  numa dessas andanças que a rede Cáritas permitiu-me. E,  em todas as oportunidades em que  nos encontramos e reencontramos, o sorriso era o que mais marcava quando ela chegava aos encontros. Lembrando que as conversas eram, em sua maioria,  regadas com  café e  bolo feito por ela e por suas amigas do “Buffet Amigas da Xica” em Ribeirão das Neves-MG

Mulher que inspira a ser forte,  determinada e batalhadora. Xica é mãe de três lindas mulheres e avó de três netos.  É, sem dúvida, a inspiração para muitos que lutam para vencer as adversidades da vida. Nascida na cidade de Ipanema no Vale do Rio Doce, Xica trabalha desde os 14 anos. Começou como babá, diarista, empregada doméstica e cozinheira. Aos 24 anos, conheceu o ex-companheiro e com dois meses de namoro,  decidiram iniciar uma vida juntos .

 

Violência doméstica e cárcere privado

Xica é ativista pelos direitos da mulher  e sabe muito bem as dores da violência doméstica que ferem não somente o corpo mas dilacera a alma. Ela conta que foi vítima de violência pelo ex-companheiro por mais uma década com dezenas de ferimentos no corpo que ainda marcam a sua pele. Xica explica que ele a mantinha em casa sem poder sair e sem contato com a família. Devido as agressões, sofreu dois abortos  e um outro bebê menino nasceu morto.  Ao todo foram oito denúncias na Delegacia e todas retiradas posteriormente, seja por medo ou por dependência financeira. A liberdade era apenas um sonho.  

Xica conta que a última agressão foi quando o ex-companheiro atirou o carro na lagoa junto com as filhas. As meninas se machucaram e foram levadas para o Hospital João XXIII em Belo Horizonte, sendo que Xica ficou mais debilitada e levou  mais de 80 pontos no rosto e a perda do olho direito que foi perfurado com a queda do automóvel.  Ali, a decisão era inevitável: acabar com o  relacionamento abusivo para preservar  a  sua vida e a das filhas.

 Com trinta e poucos anos e três filhas pequenas, Xica se desfez das amarras para ser protagonista de sua própria história e tomou as rédeas de sua vida. Ela foi encaminhada ao Centro Especializado de Atendimento a Mulher, a Casa Benvinda no bairro Santa Tereza em Belo Horizonte,  que ofereceu apoio jurídico, psicológico e abrigo.

Para as mulheres que sofrem violência doméstica, Xica deixa seu recado. “Eu o denunciei oito vezes e depois retirava a queixa. Não façam isso. Já no primeiro tapa, denuncie. Na primeira palavra de agressão psicológica: denuncie. Se valorize mulher!”, reflete. 

Uma nova história com a Economia Popular Solidária 




A história de Xica nos empreendimentos solidários deu início quando ela conseguiu ajuda com a Casa Benvinda. A partir daí, a nova Xica conheceu a economia solidária e começou a fazer pães e bolos com outras amigas, vítimas também da violência doméstica.  Na época, sua única fonte de renda, era o benefício do Bolsa Família que com o passar dos anos, deixou de receber para trabalhar e se dedicar ao empreendimento que antes, se chamava “Trem bão”. Para ela, o que vale na economia popular solidária, é o saber popular que essas mulheres possuem ao longo da vida.  

Por meio da Economia Popular Solidária, Xica encontrou uma grande alternativa para superar um estado marcado pela violência doméstica. Hoje, ela é um grande nome da Economia Solidária no Estado e Coordenadora de fóruns Nacional e Estadual da Economia Popular Solidária.  Xica conta que no grupo de convivência, as mulheres descobrem que a Economia Solidária gera renda coletiva, com a participação de gente com saber popular

 O reconhecimento do trabalho de Xica e de suas amigas foi destaque em 2013 quando elas receberam o prêmio Usinas do Trabalho. Já, este ano, o grupo recebeu recursos para compra de equipamentos como fogão, forno dentre outros. Xica conta que assim que passar a pandemia do novo Coronavírus, as mulheres serão capacitadas para aprender a fabricar bolos e outros produtos para a alimentação escolar. No entanto, o grupo precisa de uma cozinha, que é o novo sonho da Xica e suas amigas. O grupo do buffet possui 15 mulheres e quatro rapazes que estão na luta por dias melhores.  

Xica com o seu trabalho realizou os sonhos das filhas no caminho da universidade cursando Direito, Secretariado e Farmácia. Xica também não ficou de braços cruzados e estudou por meio da Educação de Jovens e Adultos e fez o vestibular para Gastronomia.  Em breve, ela terá novas histórias de vitórias  para contar e nova receitas para produzir. Alguém ainda duvida da força dessa mulher? 


Confira um vídeo publicado pelo Jornal O Tempo em Dezembro de 2019 sobre mulheres vítimas de violência doméstica 





 Saiba mais sobre a Economia Solidaria

https://caritas.org.br/noticias/caritas-brasileira-aposta-na-economia-popular-solidaria-como-meio-de-transformacao-social

Para conhecer o trabalho da Xica

https://www.facebook.com/Xicarn 


Contato do Buffet Amigas da Xica : silvappk@gmail.com

Denúncias de violência doméstica  - Ligue 180 


Mais sobre a Xica  - Fotos- Perfil Pessoal

Xica e as filhas 





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