Seminarista aos 36 e sustentado pela fé



“Me chamaste para caminhar na vida contigo. Decidi para sempre seguir-te, não voltar atrás. Me puseste uma brasa no peito e uma flecha na alma. É difícil agora viver sem lembrar-me de ti” ....
Os versos da música composta pelo Padre Zezinho servem como melodia que trilha a conversa com o seminarista monlevadense Rômulo José Domingos Moreira, de 36 anos. Para os amigos, apenas Rominho da Cemig. Afinal de contas, foram 17 anos atuando na estatal de energia elétrica mineira passando pelas cidades de João Monlevade, Divinópolis e por último em Belo Horizonte. A caminhada para o sacerdócio está sendo realizada no Seminário Arquidiocesano Coração Eucarístico de Jesus em Belo Horizonte. 

O seminarista é filho da amável e muito querida ministra da Eucaristia na paróquia Nossa Senhora da Conceição, Amélia Maria da Conceição Moreira e do metalúrgico aposentado, Francisco de Paula Moreira. O casal mora há 45 anos no bairro de Lourdes em Monlevade onde criaram os seis filhos. 

Formado em Administração de Empresas pela antiga Fundação Comunitária Educacional e Cultural de João Monlevade (Funcec ) no ano de 2008, Rômulo teve uma vida como qualquer outro jovem sonhador. Para ser aprovado nas provas do concurso da Cemig, ele estudou muito e seu resultado na época, foi comemorada por todos os familiares e amigos. A estatal praticamente foi seu primeiro emprego. Estudou, namorou, viajou e também ajudou nos sonhos dos pais. Novamente, fez outros planos, mas mal sabia que os planos que estavam sendo articulados para ele seriam muito maiores com conta no bate papo que tivemos.




Como você relata sua experiência de vida anteriormente ao chamado para a vocação de sacerdote?

Eu sempre fui muito atuante na igreja. Participava de grupos de orações e retiros, como o Carnaval com Cristo, conhecido na cidade como o Rebanhão. 

Em Belo Horizonte, coordenei um grupo de oração entre os anos de 2012 e 2014. Já em 2015, assumi a coordenação de uma forania e em 2016 coordenei a Região Episcopal Nossa Senhora da Piedade em Belo Horizonte pela Renovação Carismática Católica, até o ano de 2019. Foi neste instante que algo começou a brotar em meu coração...


Você sempre quis ser sacerdote? Era algo que estava dentro de você desde criança?

Humanamente falando não pensava nessa possibilidade. Tudo foi muito natural. Na verdade eu até “briguei” com Deus quando comecei a perceber as intenções dEle (risos).

Eu sempre fui uma pessoa plena, nunca fui frustrado. Um dia, quando eu voltava da casa de meus pais em Monlevade em direção a BH (foi no dia dos pais do ano de 2016) e na estrada na serra entre Caeté e Sabará uma voz ressoou em meu peito: larga tudo e vem me seguir.

Eu não acreditava, tentei me enganar dizendo que certamente eu estava muito envolvido com o pastoreio do movimento que eu era membro. Fiz de bobo, chorei, mas foi de raiva (risos). Pensei: minha vida está estabilizada e o Senhor me fazendo um convite afrontoso desses?. Era o que meu choro exprimia. Ainda assim fui procurar meu pároco na paróquia de São Pedro Apóstolo, no bairro Floresta em BH. Relatei o ocorrido ao padre Trópia. Ele ouviu atentamente e depois tomou a palavra. Enquanto ele falava aquela música ficava assim dentro do meu coração “eu pensei muitas vezes calar e não dar nem resposta”. (Trecho da música do padre Zezinho: Te amarei Senhor).

Saí da conversa com o padre Trópia ainda mais confuso, embora eu já tinha entendido o chamado; Lembrei que o mês de agosto era o mês das vocações. Mas nem dei ideia (risos) Coloquei essa conversa com Deus na geladeira, mas, muitas pessoas vinham até a mim e diziam ter sonhado comigo como padre.

Dona Adelina uma senhora que na época tinha seus 92 anos (ela ainda é viva) me disse assim: “meu filho, você é tão bom, um moço de ouro, deveria ser padre...”. Aquilo me tremeu por dentro e respondi a ela : “De fato Ele tem me incomodado (risos). Mas reze por mim para que eu saiba o que responder”.


Conte como foi esse chamado de Deus

Quando foi numa noite de sábado no mês de junho de 2017, estando presente em uma Santa Missa na Paróquia Vera Cruz em BH eu fui surpreendido pelo Espírito Santo na música de Comunhão que diz assim: “Você não tenha medo de viver assim, trocando a vida inteira por um grande Amor, pois tudo aqui na vida sempre tem um fim e só é perene a vida que vem do Senhor. Oh meu Jesus que posso mais buscar depois de abandonar meu ser em tuas mãos. A tua luz eu quero irradiar de dentro do meu lar dos meus irmãos). No domingo pela manhã, num encontro da região que eu coordenava o Érico Damada, um grande amigo, grande músico e meu afilhado, cantou “Belíssimo Esposo” . Eu já estava rendido. Falei das minhas misérias para Deus e perguntei se Ele me aceitava, ao que em meu coração só ouvia: “cuida da minha noiva (igreja). Aí eu disse chorando: desisto de resistir...”

Busquei o padre Eduardo que hoje é pároco em Caeté e naquela época estava Diácono. Falei sobre tudo e ele me convidou a participar de um retiro para seminaristas na cidade de Três Corações, já era julho de 2017.

Em setembro procurei o reitor do seminário de Belo Horizonte, o padre Nivaldo naquela época. Participei dos últimos encontros vocacionais daquele ano e no ano todo de 2018. Falei com meus pais e com minha gerente na Cemig. Mas a condição que levei a Deus foi a seguinte: “farei a caminhada vocacional, mas se for algo somente da minha cabeça, a igreja vai falar que não tenho perfil”. Foi como Gedeão com o fio de lã no orvalho. Eu queria comprovar se era humano ou de fato vinha de Deus.

Fui admitido no seminário em 9 de dezembro de 2018. Em 24 de janeiro de 2019 eu me mudei para o seminário e meu desligamento da Cemig foi em 15/02/2019. Deus me garantiu todos os direitos dos 17 anos de trabalho. Foi uma certeza de que Ele estava e está comigo.

 

Com os pais nos 50 anos de casados
Com os pais nas Bodas de Ouro do casal. 


Como está sendo o curso? Há horários definidos para as atividades do dia?

Nossa caminhada no seminário se inicia todos os dias às 6 da manhã com a oração das Laudes na liturgia das Horas. São os louvores matinais. Em seguida temos o café e as 7 horas aulas na PUC Minas.  Retornarmos as 10h30 e continuamos os estudos das matérias lecionadas no dia, desenvolvemos trabalhos da disciplina. As 12h30 temos almoço com todos os irmãos seminaristas e logo após vamos para nossos quartos continuar os estudos. As 15 horas temos o café por comunidades. As 18h30 temos a Santa Missa e as 19h30 o jantar.

Temos portanto uma média de estudos de oito horas por dia. É uma formação de alta qualidade para que possamos atender às demandas desse tempo em que vivemos. Há uma exigência saudável para o nosso bem e de toda Santa Igreja. Fora algumas reuniões ou formações que temos ao longo do semestre. Antes da pandemia ao início de cada semestre tínhamos um retiro preparatório muito profundos!

 

Para finalizar, qual seria o conselho que você ofertaria a um jovem que possui o desejo de seguir a vida no sacerdócio?

Eu falaria de algo geral. Só seremos felizes plenamente se estivermos no centro da vontade de Deus. Seja no Ministério Sacerdotal, no matrimônio ou como solteiro. Dentro de nós, há um desejo por algo maior e buscamos por isso durante a nossa vida, algo que nos preencha. Santo Agostinho chama isso de inquietude interior e vai narrar isso de forma bela em seu poema oracional “Tarde te amei!”. Ali ele relata que procurava fora o que estava dentro.

Hoje vivemos em uma sociedade muito fragmentada, com muitos caminhos ofertados e podemos nos perder se não estivermos alicerçados em Cristo. O fato é que Deus nos amou primeiro, Ele é quem tem a primeira atitude de vir ao nosso encontro. Então eu quero me dirigir a você que sente algum chamado dentro do seu coração: não tenha medo de se comprometer.

Deus cuida de tudo! Seja casado, seja celibatário, Ele está no controle de todas as coisas.

Ele está aí bem dentro de você. Quando o descobrir será feliz na escolha que fizer. Apenas seja amigo de Deus, permita-O moldar sua vida, dirigir sua história. Fernando Pessoa disse que “tudo vale a pena se a alma não é pequena” eu na minha pequenez ouso a complementar que em Deus, nossa alma se agiganta. Santa Teresinha do Menino Jesus falava assim: “eu sou aquilo que Deus pensa de mim”. Assim não tenha medo de deixar Deus sonhar em você.

Eu amo os santos e suas vidas, (risos) e quero finalizar com Santa Catarina de Sena, “jovens, se soubessem o que Deus espera de vocês colocariam fogo no mundo”.

Então vá, espalhe a chama do amor de Deus nos corações. Seja presença real de Jesus no matrimônio, no sacerdócio, na sociedade. Faça valer a pena o batismo pelo qual você e sua família aderiram à Cristo Jesus.

Seja padre. Seja freira. Seja esposo. Seja esposa. Seja santo!

Rômulo e os amigos do seminário 

 

Para conhecer um pouco sobre o trabalho do seminarista Rômulo Moreira no Instagram romulomoreirauai




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